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Do porto à raia: o primeiro dia do Fórum da ANB em Salvador discutiu cidade, esporte, turismo e marinas

Quatro painéis abriram o 2º Fórum Náutico Internacional da ANB no Terminal Marítimo de Salvador. Do modelo do Porto de Vigo à história do remador paralímpico Renê Campos, da estratégia galega do Caminho de Santiago ao investimento em marinas, o dia mostrou a Economia do Mar em todas as suas escalas.

Do porto à raia: o primeiro dia do Fórum da ANB em Salvador discutiu cidade, esporte, turismo e marinas
Foto: Foto: Mundo Mar

O mar como eixo de tudo

O 2º Fórum Náutico Internacional da ANB, a Associação Náutica da Bahia, abriu nesta quarta-feira, 16 de setembro, no Terminal Marítimo de Salvador, com uma programação que percorreu toda a cadeia da Economia do Mar em um único dia. Foram quatro painéis, do planejamento urbano dos portos ao esporte de alto rendimento, passando pelo turismo e pelos investimentos em marinas. O Mundo Mar acompanhou de perto, com a jornalista Michele Castilho Henrique, diretora da ANB, mediando o painel de abertura.

Palestrantes reunidos no primeiro dia do 2º Fórum Náutico Internacional da ANB, no Terminal Marítimo de Salvador. Foto: Mundo Mar
Palestrantes reunidos no primeiro dia do 2º Fórum Náutico Internacional da ANB, no Terminal Marítimo de Salvador. Foto: Mundo Mar

Painel 1: quando a cidade abraça o porto

A abertura ficou com o tema "Integração Porto-Cidade", mediado por Michele Castilho Henrique. A secretária do Mar de Salvador, Maria Eduarda Lomanto, lembrou que comanda a primeira secretaria do tipo no Brasil e resumiu a relação da capital baiana com o oceano: "Salvador cresceu a partir do mar e a cidade se organiza a partir do porto. 90% de tudo o que a gente consome vem pelo mar." Para ela, as cidades precisam deixar de ver o porto como um vizinho incômodo e passar a tratá-lo como vetor de desenvolvimento, com modelos claros de governança pública.

Antônio Gobbo, da Companhia das Docas do Estado da Bahia, a Codeba, trouxe o lado de quem opera a infraestrutura. Falou do desenvolvimento portuário e dos desafios logísticos ligados ao Rio São Francisco, e citou um crescimento de 24% nas atividades portuárias em 2024, além de projetos que aproximam porto e comunidade, como o Museu da Memória Portuária e o saneamento da Ilha de Maré.

O contraponto internacional veio de Alberto Fuentes Losada, secretário-geral do Porto de Vigo, na Espanha, um dos maiores portos pesqueiros da Europa. Ele apresentou o conceito de "portos como hubs da economia azul" e contou como Vigo reconectou porto e cidade a partir de 2014, com 16 comissões colaborativas que reuniram cerca de 300 especialistas. É exatamente o tipo de experiência que a Bahia observa para planejar a Baía de Todos-os-Santos.

Michele Castilho Henrique, diretora da ANB, mediou o painel de abertura sobre integração porto-cidade. Foto: Mundo Mar
Michele Castilho Henrique, diretora da ANB, mediou o painel de abertura sobre integração porto-cidade. Foto: Mundo Mar

Painel 2: o esporte que forma gente

À tarde, o painel "Esportes Náuticos: Educação, Saúde, Cidadania e Inclusão", mediado por Marcelo Baqueiro Fróes, diretor da ANB, mostrou que a vela e o remo vão muito além da competição.

A psicóloga espanhola Delfina Vicente Santiago, especialista em alta performance, defendeu que a cabeça treina tanto quanto o corpo. "Treinamos a mente e a capacidade de ir além, e isso vale tanto para os treinadores quanto para os atletas", disse, ao falar do que chamou de treinamento invisível: nutrição, sono e controle emocional.

O momento mais forte veio do remador paralímpico baiano Renê Campos, médico de formação e medalhista de bronze em Tóquio 2020. Ele contou como uma lesão medular aos 26 anos o transformou de médico em paciente, e como encontrou no remo uma chance de recomeço, treinando numa lagoa em Sauípe durante a pandemia até chegar ao pódio paralímpico. Aproveitou o palco para cobrar das autoridades melhor infraestrutura de treinamento no estado.

Fechando a mesa, o velejador Bernardo Peixoto, número 1 do Brasil no ranking SSL e em campanha para os Jogos de Los Angeles 2028, falou dos desafios financeiros e logísticos da classe olímpica Nacra 17 e defendeu o potencial da Baía de Todos-os-Santos: "É um dos melhores lugares para velejar", disse, apontando a região como base para o desenvolvimento da vela brasileira.

Painel 3: turismo que une fé, cultura e mar

O terceiro painel discutiu o turismo náutico e religioso como vetor de desenvolvimento regional, um tema em que a Bahia tem tudo a ganhar. A convidada internacional foi Nava Castro, referência no turismo da Galícia e hoje prefeita de Ponteareas, que apresentou a construção de uma estratégia territorial em torno do Caminho de Santiago. Lembrou que a Galícia tem o litoral mais extenso da Espanha e mostrou números do modelo galego, como cerca de 10.700 vagas de atracação em instalações náutico-esportivas e um roteiro costeiro de 1.400 quilômetros divididos em 52 etapas, que conecta a peregrinação ao mar.

Nava Castro, prefeita de Ponteareas, apresentou a estratégia galega do Caminho de Santiago. Foto: Mundo Mar
Nava Castro, prefeita de Ponteareas, apresentou a estratégia galega do Caminho de Santiago. Foto: Mundo Mar

Do lado baiano, o secretário de Turismo do estado, Maurício Bacelar, trouxe a experiência de promover festas populares marcadas pelo sincretismo religioso e pela cultura local, ativos que conversam diretamente com o turismo náutico da Baía de Todos-os-Santos. Completaram a mesa a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, o presidente do Conselho Baiano de Turismo, Pedro Costa, e Edicarlos Moreira, do Sebrae/BA, que trata do turismo de experiência e do fortalecimento de pequenos negócios ligados ao destino.

Painel 4: onde entra o investimento em marinas

O dia terminou com o painel sobre investimentos em infraestruturas náuticas, marinas e afins, o elo que transforma vocação em negócio. Leilane Loureiro, diretora de marinas da ANB e gestora da Bahia Marina, referência nacional no segmento, trouxe a visão de quem opera uma das principais marinas do país. O economista José Raimundo Zacarias, consultor do Sebrae para o setor náutico, tratou do diagnóstico e da viabilidade econômica dos projetos, enquanto o biólogo Mario Wolff Bandeira falou de licenciamento ambiental e gestão de marinas com critérios de ESG. De São Paulo, Bianca Colepicolo, secretária de Turismo de Caraguatatuba e coordenadora da câmara de turismo do Fórum Náutico Paulista, trouxe a experiência paulista de planejamento do turismo náutico.

Os palestrantes do primeiro dia receberam certificados de participação no Fórum. Foto: Mundo Mar
Os palestrantes do primeiro dia receberam certificados de participação no Fórum. Foto: Mundo Mar

O que fica do primeiro dia

O recado dos quatro painéis foi convergente: a Bahia tem o maior litoral do país e uma Baía de Todos-os-Santos com potencial de sobra, mas precisa organizar porto, cidade, esporte, turismo e marinas dentro de uma mesma estratégia. Exemplos como Vigo, na Espanha, e a Galícia do Caminho de Santiago mostram que o caminho passa por governança, planejamento e continuidade. O Fórum segue nesta quinta-feira, 17, com painéis sobre pesca, gestão costeira, indústria náutica e naval e a geopolítica dos oceanos.

Serviço

2º Fórum Náutico Internacional da ANB
16 e 17 de setembro de 2026
CONTERMAS, Terminal Marítimo de Salvador, Avenida da França, Comércio, Salvador (BA)
Programação e inscrições: doity.com.br/2o-forum-nautico-internacional-da-anb

Por: Redação Mundo Mar

Foto: Foto: Mundo Mar

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